Sobre a Liberdade Tupiniquim: o discurso de emancipação/libertação e as correntes que nos prendem - caminhos para a Revolução Brasileira.

 Aldo  Movimentos Sociais  16/08/2017

“Não temais o avanço do ódio, da intolerância, do preconceito...tudo isso é apenas o medo de quem está no poder ou com ele se identifica, de reconhecer que chegou um tempo de mudanças profundas e estruturais, qual é inevitável, se ainda quisermos sobreviver enquanto espécie”

Há a meu ver, um limite histórico em grande parte do discurso de emancipação (libertação/liberdade, etc.) no Brasil. Qual seja: durante a década de 1980 grande parte dessas forças aqui no Brasil, empenharam-se na construção do partido dos Trabalhadores (PT), alinhadas pela ideia do socialismo. Após 1987 (houve a frustração geral no PT com o projeto socialista e um autoconvencimento interno da necessidade de táticas capitalistas para ganhar as eleições e alçar à chegada ao poder) e sobretudo após 1989, com a queda do Muro de Berlim, muitas pessoas frustraram-se e foram fazer outras coisas.

Mas daquelas que permaneceram ligadas ao partido, ao menos as lideranças que em 2002 estavam no auge do partido, foram as que de 1987 a 2002 fizeram um giro ideológico no PT. Giro ideológico esse que assumindo uma herança paternalista e fatalista passam a disputar a hegemonia do poder nas eleições e na base construída até então e deixaram de renovar, atualizar, seu discurso nas bases, ou seja, não atualizaram sua discussão sobre projeto político e assumiram exclusivamente a luta pelo poder, no embalo de toda a discussão realizada até 1987. E em consonância com a burguesia nacional, sonham uma "social democracia" à la tupiniquim, em que o povo melhore sua qualidade de vida e os ricos fiquem mais ricos.

A parte que mesmo com este processo, insistiram em continuar revisando suas teorias e abandonar tanto o PT, quanto o ideal socialista-real (ou científico) fundaram outros movimentos, partidos, etc (como o PSOL), mas também, em grande parte, não foram às bases, partiram do acúmulo histórico, inclusive da linguagem, significações e sentidos acumulados até então, o que gerou um fenômeno que mesmo que tentassem (e algumas tentaram e tentam) ir às bases, o discurso está demasiado descolado da realidade do povo brasileiro.

Um terceiro movimento, dentre os três grandes que quero citar, que não reconheceu a queda do Muro de Berlim e quer implantar o socialismo mundial ainda hoje, não tendo passado pela discussão do "capitalismo dependente" e do "sistema mundo", ainda sonham com a Revolução Socialista Mundial e choram a morte dos camaradas Lênim, Trotsky e Stalim (e trabalham uns contra os outros para discutir dentro deste bloco quem será o Responsável, a Vanguarda Revolucionária, ou quem levará o mérito e imporá sua ideologia ao processo histórico revolucionário).

Há em comum, nestas três grandes frentes de libertadores e libertadoras um mesmo equívoco: afastaram-se das bases populares e consideraram apenas a luta pela hegemonia do poder institucional-eleitoral. Não renovaram, em grande parte sua teoria e não alcançaram mais "a massa", trazendo para suas fileiras apenas as pessoas que ahistoricamente identificam-se com seu discurso corrompido, pelo poder.

Nenhuma dessas três frentes, com raríssimas exceções, a meu ver, compreendeu a ruptura com o contrato social, em 2013, onde grande parte do povo brasileiro foi às ruas comunicar sua não concordância com o atual estado das coisas. A direita conseguiu compreender a isso e impor-se, junto às massas, significando 2013 a partir do "inconsciente coletivo reacionário" dando esperanças de voltar a um lugar político confortável, capitanearam a hegemonia daquela explosão de rompimento e conseguiram forjar uma consciência unívoca que demonizou o PT e à esquerda, impondo-se e conquistando a hegemonia e o poder para a implantação do velho sonho neoliberal que nos rondava desde 1987 e foi implantando-se aos poucos, pelas arestas, a partir do árduo trabalho dos filhotes da ditadura e dos "capitães do mato" entreguistas que desde lá vêm resistindo, reacionando, e entregando tudo o que podem de nosso país, a nosso novo senhor, os EUA, desde o Consenso de Washington, que agora parece estar totalmente implantado ou em vias de.

O povo (pessoas que vão tomando a consciência dos processos políticos, ainda que por intuição, sensibilidade), percebendo-se usado por essa direita golpista e entreguista e/ou sem nenhuma identificação com os (não)projetos das esquerdas fragmentadas, participa do que acham que pode ajudar em algo, a partir de seu cotidiano a cada dia mais miserável, no qual lutam por sua subsistência, desacreditadas de qualquer possibilidade de libertação.

"A massa" faz o que sempre fez: o que é mais fácil, que causa menos dor, aderem inconscientemente aos discursos de alienação e dominação, dado que é o que lhes resta é a fatalidade deste processo político até que alguém MOSTRE caminhos melhores.

Ao povo, se ganha com ideias, à massa, com testemunho. Quando as ideias de um projeto logicamente possível vão transformando-se em ação concreta, histórica (e portanto que supere este processo qual o povo já está ciente e recusou) a começar pela unidade das esquerdas em um verdadeiro projeto político nacional, revolucionário que mude o atual estado das coisas, em um país melhor, mais justo e solidário, a começar desde baixo, mostrando as possibilidades das reformas de base, desde o povo, fazendo com que voltemos primeiro a acreditar em nós mesm@s, nos vendo como comunidade, como povo, como nação.

Até aqui, grande parte da esquerda segue, apesar de o discurso de libertação, presa nos conceitos e categorias iluministas, positivistas, dialéticas... do séc. XX, quais levam a uma culpabilização do povo – e sem distinguir povo de massa – e olhando apenas para o poder institucional, esquecendo-se que qualquer poder, em qualquer momento histórico tem uma única fonte, uma única nascente: o povo! O povo é o único sujeito revolucionário, é o povo que faz qualquer revolução possível. E veja, que aqui chamo de revolução as reformas estruturais de base, plurinacionais.

Uma outra forte corrente que nos prende é a massificação conceitual, também advinda das categorias e conceitos do séc. XX, quais não servem para a plurinacionalidade latino-americana. É preciso reconhecer que no Brasil, temos várias nações, vários povos com suas especificidades etnológicas, cada qual com seu ethos, ainda que possamos nos ver como um país. É preciso ainda, reconhecermos que nossas diferenças culturais, sociais e políticas, não se separam, por isso é preciso um projeto político em que todas estas diferenças caibam. Nos quais as liberdades individuais de cada pessoa e de todas as pessoas, sejam respeitadas. E portanto, se vislumbre múltiplas possibilidades econômicas, de organização social e política. Cada povo tem direito a organizar-se de sua forma, a se realizar como tal e um projeto libertador deve permitir e potencializar que isso ocorra. Portando, a meu ver, o próximo projeto político de libertação, não pode ser como os anteriores: libertação de algumas pessoas e submissão de outras. Precisa ser um projeto de libertação de cada pessoa e de TODAS as pessoas. Precisamos chegar à conclusão que a libertação da mulher, deve ser também a libertação do homem. A libertação do negro, da negra, deve ser a libertação do branco. A libertação da juventude, precisa ser a libertação dos que praticam o juvenicídio...

As revoluções do séc. XXI serão transculturais, diversas, complexas, plurais... Os projetos políticos não serão totalizantes, fechados, mas possibilitarão a identificação de cada pessoa e de todas. Serão projetos de reivindicações hegemônicas nos quais cada movimento, cada pessoa se veja representada. Serão projetos éticos, de alteridade, de sustentabilidade real, de bem-viver.

A Revolução Brasileira pode ser a vitória de um Projeto Político de amor à humanidade. À verdadeira humanidade, uma nova humanidade.