Megaocupação de São Bernardo é reflexo óbvio do desemprego galopante do país

 Aldo  Movimentos Sociais  22/10/2017

Megaocupação de São Bernardo é reflexo óbvio do desemprego galopante do país

Por Gabriel Brito, da Redação

21/09/2017



Foto: Ri­cardo Stuc­kert

De re­pente, em meio a um mo­mento de grande apatia e de­sen­canto da po­pu­lação bra­si­leira, surge uma imensa ocu­pação de terra no meio de São Ber­nardo do Campo, his­tó­rico polo in­dus­trial bra­si­leiro. Com mais de 6000 pes­soas, as fotos aé­reas im­pres­si­onam pela ex­tensão de bar­racas de lona. Sobre este acon­te­ci­mento, en­tre­vis­tamos Aldo Santos, pro­fessor, ati­vista e ex-ve­re­ador da ci­dade, que acom­panha a ocu­pação desde a che­gada das pri­meiras fa­mí­lias.

“São pes­soas mo­ra­doras de rua, de­sem­pre­gadas, que não con­se­guem pagar alu­guel e com o de­sem­prego são em­pur­radas de­ses­pe­ra­da­mente para as so­lu­ções que são tra­çadas pela pró­pria classe tra­ba­lha­dora. Essa ocu­pação é sim­bó­lica das con­di­ções econô­micas e po­lí­ticas em que vive o país, mer­gu­lhado no la­maçal da cor­rupção e do se­questro de di­reitos. A ten­dência é au­mentar a luta na ci­dade e no campo contra os de­ten­tores do ca­pital”, ex­plicou. 

E do mo­mento em que o país vê uma exal­tação de ânimos e ódios ir­ra­ci­o­nais, causou es­panto o epi­sódio em que um “mo­rador” da ocu­pação re­cebeu um tiro, que os sem tetos alegam ter saído da ja­nela de um prédio vi­zinho. Sem graves con­sequên­cias para o fe­rido, um ato de so­li­da­ri­e­dade reuniu mi­lhares de pes­soas no úl­timo do­mingo, muitas de fora da ocu­pação or­ga­ni­zada pelo MTST (Mo­vi­mentos dos Tra­ba­lha­dores(as) Sem Teto).

“Existem po­lí­ticos tra­di­ci­o­nais na ci­dade que ficam in­su­flando o povo contra a ocu­pação, atri­buindo todo tipo de ad­je­tivo aos mo­ra­dores que estão no local. Os mo­ra­dores dos pré­dios não são bur­gueses, não detêm os meios de pro­dução. São ope­rá­rios qua­li­fi­cados, pro­fes­sores e me­ta­lúr­gicos que são igual­mente ex­plo­rados e a grande e es­ma­ga­dora mai­oria vive num apar­ta­mento ali­e­nado, tendo apenas de­zenas de carnês de pres­tação, a perder de vista. Com a eco­nomia em fran­ga­lhos, pos­si­vel­mente em pouco tempo po­derão estar de­sem­pre­gados e sem al­ter­na­tiva também”, pon­tuou Santos, re­fe­rindo-se à pos­tura do pre­feito Or­lando Mo­rando, do PSDB.

A en­tre­vista com­pleta com Aldo Santos pode ser lida a se­guir.


Aldo Santos. Imagem da TV Bernô.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como co­meçou a me­ga­o­cu­pação do MTST em São Ber­nardo do Campo?

Aldo Santos: O MTST tem uma ló­gica pró­pria de vi­a­bi­lizar suas ocu­pa­ções, que passa pelo le­van­ta­mento do ter­reno ade­quado, a pre­pa­ração da lo­gís­tica, a efi­cácia na ocu­pação, que sempre ocorre de acordo com os in­te­resses e es­tra­té­gias do mo­vi­mento etc. Dentro desta di­nâ­mica, so­mente um grupo de di­ri­gentes tem o con­trole dos passos a serem se­guidos. Na ver­dade, São Ber­nardo do Campo é uma grande ci­dade que possui grandes bol­sões de terra que via de regra estão apenas no aguardo da ação da es­pe­cu­lação imo­bi­liária.
 
Cor­reio da Ci­da­dania: Você tem acom­pa­nhado a ro­tina local? Como tem sido os dias dessas fa­mí­lias?

Aldo Santos: Tenho acom­pa­nhado par­ci­al­mente o mo­vi­mento, uma vez que existe uma forte re­pressão do apa­rato po­li­cial e da guarda civil mu­ni­cipal, im­pe­dindo que se es­ta­cione pró­ximo ao local, pois os carros são mul­tados ile­gal­mente, guin­chados, a fim de tentar de­ses­ti­mular o maior acesso dos mo­ra­dores da ocu­pação. Con­tra­di­to­ri­a­mente, o mo­vi­mento só tem au­men­tado e cer­ta­mente será vi­to­rioso di­ante da falta de mo­radia po­pular da ci­dade, do de­sem­prego cres­cente e da ne­ces­sária so­ci­a­li­zação das terras im­pro­du­tivas em mãos de poucos, mesmo nos meios ur­banos. 

Na ver­dade, existe uma de­manda re­pri­mida, pois o poder pú­blico vem dei­xando a de­sejar e no go­verno pas­sado se­quer o povo con­se­guiu mo­radia de­cente. E quando ten­tavam ocupar uma área ociosa, a pró­pria tropa de choque da Guarda Mu­ni­cipal ti­rava o povo sem dó nem pi­e­dade, mesmo ao ar­repio da lei.


Foto: Ro­drigo Pinto
 
Cor­reio da Ci­da­dania: Como foi o epi­sódio do tiro que teria vindo de um mo­rador de prédio vi­zinho ao ter­reno, que feriu um homem da ocu­pação? Que pano de fundo você vê no epi­sódio?

Aldo Santos: Existem po­lí­ticos tra­di­ci­o­nais na ci­dade que ficam in­su­flando o povo contra a ocu­pação, atri­buindo todo tipo de ad­je­tivo aos mo­ra­dores que estão no local. Os mo­ra­dores dos pré­dios não são bur­gueses, não detêm os meios de pro­dução. São ope­rá­rios qua­li­fi­cados, pro­fes­sores e me­ta­lúr­gicos que são igual­mente ex­plo­rados e a grande e es­ma­ga­dora mai­oria vive num apar­ta­mento ali­e­nado, tendo apenas de­zenas de carnês de pres­tação, a perder de vista. Com a eco­nomia em fran­ga­lhos, pos­si­vel­mente em pouco tempo po­derão estar de­sem­pre­gados e sem al­ter­na­tiva também. 

Por­tanto, é uma falsa po­lê­mica jogar os mo­ra­dores dos pré­dios contra os sem tetos, uma vez que de­vemos re­gis­trar que mesmo nestes apar­ta­mentos temos cen­tenas de pes­soas so­li­dá­rias com os ocu­pantes, in­clu­sive aju­dando com do­a­ções. São in­for­ma­ções que pre­cisam ser apu­radas pela po­lícia, que deve es­cla­recer ur­gen­te­mente os fatos, pois ofi­ci­o­sa­mente e se­gundo mo­ra­dores o tiro teria par­tido da di­reção de um dos apar­ta­mentos. 

Assim, a mesma não pode ser co­ni­vente com prá­ticas cri­mi­nosas nem fazer dis­tinção so­cial. Essas ma­ni­fes­ta­ções rai­vosas e in­con­se­quentes só fazem au­mentar o nú­mero de par­ti­ci­pantes, haja vista as mi­lhares de pes­soas que par­ti­ci­param do ato po­lí­tico do úl­timo do­mingo, dia 17. O pano de fundo é sempre ti­pi­ficar e tratar a luta so­cial como caso po­li­cial. As ocu­pa­ções na ver­dade anun­ciam o de­sem­prego ga­lo­pante com cerca de 14 mi­lhões de de­sem­pre­gados e fa­mé­licos em nosso país e a ne­ces­si­dade ur­gente de se vi­a­bi­lizar as re­formas agrária e ur­bana. 

O cres­ci­mento de uma ci­dade deve levar em conta um pla­ne­ja­mento ha­bi­ta­ci­onal, prin­ci­pal­mente em se tra­tando de uma ci­dade rica como São Ber­nardo, que tem um or­ça­mento em torno de 6 bi­lhões de reais e já de­veria ter re­sol­vido esse tipo de de­manda hu­ma­ni­tária.
 
Cor­reio da Ci­da­dania: Como você des­cre­veria o perfil dessas fa­mí­lias, de modo a com­pre­en­dermos um pouco me­lhor como se chegou a tal ocu­pação?

Aldo Santos: São pes­soas mo­ra­doras de rua, de­sem­pre­gadas, que não con­se­guem pagar alu­guel e com o de­sem­prego são em­pur­radas de­ses­pe­ra­da­mente para as so­lu­ções que são tra­çadas pela pró­pria classe tra­ba­lha­dora. É o con­traste de uma ci­dade rica con­vi­vendo com uma ci­dade em­po­bre­cida pelo sis­tema vi­gente, ex­clu­dente e que ge­ral­mente tenta jogar o povo na mar­gi­na­li­dade. Fe­liz­mente, quando o poder pú­blico não res­ponde aos an­seios efe­tivos da classe, a pró­pria classe aponta o ca­minho da luta e da re­sis­tência, que é or­ga­nizar, ocupar, re­sistir e morar.
 
Cor­reio da Ci­da­dania: O que a mas­si­vi­dade da ocu­pação re­pre­senta em re­lação ao atual mo­mento so­ci­o­e­conô­mico do país?

Aldo Santos: Essa ocu­pação é sim­bó­lica das con­di­ções econô­micas e po­lí­ticas em que vive o país, mer­gu­lhado no la­maçal da cor­rupção e do se­questro de di­reitos. A ten­dência é au­mentar a luta na ci­dade e no campo contra os de­ten­tores do ca­pital. Con­co­mi­tan­te­mente, de­nuncia o es­tado de pe­núria em que vivem mi­lhões de tra­ba­lha­dores aban­do­nados à sua pró­pria sorte. 

O pró­prio nome da ocu­pação, “Povo sem medo”, está dentro de um con­texto de en­fren­ta­mento à qua­drilha po­lí­tica que se apossou do país e pre­cisa ser re­mo­vida o mais rá­pido pos­sível. O papel do MTST, MST, or­ga­ni­za­ções de es­querda, par­tidos po­lí­ticos de es­querda e a so­ci­e­dade cons­ci­ente dos ata­ques do go­verno em re­lação ao con­ge­la­mento de sa­lário, de­sem­prego, des­man­te­la­mento dos di­reitos tra­ba­lhistas, da re­forma da pre­vi­dência e ou­tras ma­zelas de Temer e seus as­se­clas re­quer que ur­gen­te­mente sejam bar­rados. A luta or­ga­ni­zada é o nosso es­pe­rançar.
 
Cor­reio da Ci­da­dania: O poder pú­blico tem di­a­lo­gado com as fa­mí­lias da ocu­pação? Em que pé es­taria essa re­lação?

Aldo Santos: O pre­feito da ci­dade tem afir­mado que não ne­gocia com “in­va­sores”, se omi­tindo de seu papel de go­ver­nante e se aco­var­dando di­ante da massa hu­mana que vem se ar­ti­cu­lando em torno dessa luta e ou­tras lutas na ci­dade. É ur­gente que o pre­feito, a câ­mara mu­ni­cipal, as ins­ti­tui­ções hu­ma­ni­tá­rias bus­quem um ca­minho para a so­lução do im­passe que a mi­se­ra­bi­li­dade so­cial criou. 

Quando fui ve­re­ador na ci­dade, par­ti­cipei de inú­meras ocu­pa­ções e os pre­feitos na sua grande mai­oria aten­deram o mo­vi­mento, aco­lheram e os tra­taram com res­peito e dig­ni­dade. Es­pe­ramos que o atual pre­feito faça um gesto de um agente po­lí­tico res­pon­sável, abra diá­logo e apre­sente uma pers­pec­tiva para os rumos do mo­vi­mento. 

A queda de braço não in­te­ressa aos go­ver­nantes, pois se trata de mo­ra­dores da ci­dade e con­tri­buintes que estão num mo­mento de agonia so­cial e à es­pera de o poder pú­blico dar uma res­posta ur­gente e sa­tis­fa­tória.
 
Cor­reio da Ci­da­dania: Você é um ati­vista que vive o co­ti­diano da ci­dade de São Ber­nardo e suas lutas so­ciais. Como tem sido o con­texto do mu­ni­cípio na nova gestão, de Or­lando Mo­rando, do PSDB e cujos dis­cursos lem­bram os de João Doria, fi­gura agora na­ci­o­nal­mente co­nhe­cida?

Aldo Santos: O perfil do pre­feito Or­lando Mo­rando é si­milar ao da ca­pital João Dória, que está mais pre­o­cu­pado em gol­pear o Alckmin e cuidar da cam­panha na­ci­onal do que ad­mi­nis­trar a ci­dade de São Paulo. Em São Ber­nardo, o pre­feito só falta se vestir de sem teto, dormir no acam­pa­mento de­baixo de lona de plás­tico preto no calor e no frio para sentir efe­ti­va­mente a agonia dos seus se­me­lhantes. Este ter­reno ocu­pado está há mais de 40 anos cum­prindo uma função es­pe­cu­la­tiva e não so­cial.

Re­cen­te­mente, o pre­feito vem cri­mi­na­li­zando mo­ra­dores de áreas de ma­nan­ciais como os da área pós-balsa no Ri­acho Grande, li­mi­tando o di­reito de ir e vir, uma con­creta prá­tica de au­sência de pro­jetos para esta po­pu­lação tão im­por­tante. Por­tanto, a ci­dade vem pi­o­rando a cada dia que passa no aten­di­mento à saúde, edu­cação, ha­bi­tação, mo­bi­li­dade ur­bana, além de ter re­to­mado para a pre­fei­tura o ter­reno com o prédio do IMASF, pra­ti­ca­mente pronto, onde seria o hos­pital dos ser­vi­dores mu­ni­ci­pais. 
 
Cor­reio da Ci­da­dania: No plano mais amplo, o que vis­lumbra para o Brasil nos pró­ximos tempos, em termos de ten­sões so­ciais e po­lí­ticas?

Aldo Santos: Mesmo di­ante de golpes e mais golpes e até ameaça de in­ter­venção mi­litar por um de­ter­mi­nado ge­neral, a his­tória do nosso povo sempre foi uma his­tória de lutas e re­sis­tên­cias e dessa vez não será di­fe­rente. Eu vis­lumbro que pre­ci­samos passar este país a limpo, var­rendo os cor­ruptos do poder, pren­dendo os la­rá­pios do poder pú­blico em suas re­la­ções pú­blicas e pri­vadas, or­ga­nizar o povo para o en­fren­ta­mento ne­ces­sário e de­fi­ni­ti­va­mente avan­çarmos na cons­trução de uma nova so­ci­e­dade livre, de­mo­crá­tica, igua­li­tária e so­ci­a­lista. Re­vo­lu­ci­onar é pre­ciso!


Foto: Ro­drigo Pinto.
 

Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.
Fotos de Ro­drigo Pinto re­ti­radas de ma­téria do jor­na­lista Mar­celo Mendes 

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