Importante posicionamento contrário ao Ensino a distância.

 Aldo  Saúde  16/01/2018

Em dissonância com a base: Fisioterapeutas, Terapeutas Ocupacionais e docentes lutam contra EAD integral ou parcial, mas o Crefito 3 sugere aceitar ensino à distância em até 20% da carga horária do curso (modalidade semipresencial). Espero que o Crefito 3 reconsidere seu posicionamento.

O ensino à distância (EAD) na Saúde é um debate atual que tem colocado de um lado as instituições de ensino superior, que advogam o uso da EAD como modalidade de ensino para, essencialmente, baratear os custos do cursos, e de outro lado profissionais, associações de classes e professores que rejeitam a EAD como modalidade, sob o risco de uma formação insuficiente dos alunos, colocando em risco a saúde dos usuários/pacientes.

O ensino à distância (EAD), como forma, modalidade, ferramenta ou recurso para o ensino possui diversas conceituações dado seu caráter multifacetado, contudo, consideraremos a definição legal adotada no Decreto nº 5.622/2005:

Art. 1º ... caracteriza--se a Educação a Distância como modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos.

Na Fisioterapia há alguns cursos abertos, ou com divulgação para abertura, na modalidade EAD integral ou parcial. O EAD tem sido rechaçado por diversas associações de fisioterapia, pela associação brasileira de ensino em fisioterapia - ABENFISIO e por diversos conselhos regionais no país. Há praticamente um consenso entre os fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, assim como entre os docentes do cursos de fisioterapia, de que o EAD não é recomendado para a formação do fisioterapeuta.

Embora haja esse consenso, o Crefito 3, na revista “Em Movimento”, edição 2, de dezembro de 2017, página 21, sugere uma aceitação do ensino EAD parcial, denominado semipresencial, isto é, com até 20% da carga horária à distância. Embora o título da matéria sugerisse um posicionamento contra o ensino à distância, na página 21 há uma manifestação de aceitação do ensino semipresencial (imaginem, uma vez por semana a aula será a distância ou 1 ano de uma curso de 5 anos será à distância). Ademais, sugerem que a modalidade semipresencial seria restrita ás disciplinas teóricas, como se os conteúdos se resumem ao conceitual e procedimental (aulas práticas), excluindo o conteúdo atitudinal e a importância das relações interpessoais que existem em todas as aulas. Não existem aulas exclusivamente teóricas!

Ainda, de forma equívoca sugere que o atual ministro da educação Mendonça Filho seja um possível reforço na luta contra o EAD na saúde, pois em entrevista se manifestou contrário ao EAD 100%. Ora, Mendonça Filho é atual ministro da educação, o mesmo ministro que flexibilizou a implantação do EAD 100% e semipresencial (20%) na Portaria do MEC 11334/2016, juntamente com o presidente Michel Temer através do decreto 9235/2017. De forma equivocada o Crefito 3 sugere que a luta seja por evitar o EAD 100% e possibilitar o EAD até 20% da carga horaria do curso. Grupos como o “100% Fisioterapia e Terapia Ocupacional”, organizado pelo Dr. Eduardo Santana de Araújo e com meu total apoio, que rejeitam qualquer percentual de modalidade de ensino à distância, ou as diversas associações (mais de uma dezena) que já se manifestaram contrárias a EAD superior a 5% rejeitam a modalidade EAD 100%, assim como a modalidade semipresencial (20%). Ou o Crefito 3 está em dissonância com a base dos fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e docentes que têm travado essa luta contra a instituições de ensino superior privadas ou o Crefito 3 desconhece o posicionamento desses profissionais. Espero que o Crefito 3 reconsidere seu posicionamento.

É oportuno esse debate, pois foi recentemente aprovado no CNS a possibilidade de cursos de graduação em Fisioterapia na modalidade semipresencial, desconsiderando a diversas manifestações contrárias que existe entre os educadores e profissionais da saúde.

O posicionamento contrário ao EAD e favorável ao modelo de ensino presencial para os cursos de fisioterapia (e de todos os cursos da saúde) se justifica no fato de que o pleno desenvolvimento do aluno da graduação em fisioterapia depende, essencialmente, das relações sociais presenciais entre alunos, professores, comunidade e pacientes. Isso se deve à característica da profissão de fisioterapeuta, que não é uma atividade laboral fundamentada exclusivamente no conhecimento procedimental e conceitual, mas também na arte dos profissionais da saúde, no caso: a arte fisioterapêutica. É pela arte que se se “expressa emoções e sentimentos, ela é ampla e desenvolve a condescendência” (Hipócrates), é a arte desenvolvida através das relações interpessoais presenciais que confere ao aluno a empatia, a sensibilidade necessária no trato com outro ser humano e, consequentemente, a humanização, condição sem a qual não se pode ser fisioterapeuta. As instituições de ensino superior não devem usar as tecnologias de informação como um fim em si mesmas ou motivadas por fatores econômicos desviando-se do seu propósito precípuo: a educação integral, especialmente nos cursos de graduação na área de saúde, sob risco de ratificar modalidades de ensino desumanizadoras. As tecnologias de informação, pesquisa e comunicação remota são eficientes ferramentas, mas tão somente ferramentas, de educação, e não modalidades, com forma e essência, de educação que possam suprir as insubstituíveis contribuições das relações interpessoais presenciais na formação de um fisioterapeuta.

Dr. Marcelo Reina Siliano
Crefito 3: 49440