DIVULGAÇÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018, INCLUSÃO OU EXCLUSÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA O POVO NEGRO?

 Aldo  Movimento negro  05/01/2018

 

“Onde está teu irmão?” (Gênesis 4,9)
A nomenclatura Fraternidade é um termo oriundo do latim frater, que significa "irmão". Ela tem uma conotação cultural, moral, religiosa e afetiva, pois compreende-se no sentido puro da palavra: laço de parentesco entre irmãos, irmandade e união afetiva de irmão para irmão.


A Igreja motivada pelo o espírito fraterno de Jesus de Nazaré, o Frater (irmão) por excelência, realiza anualmente, no período quaresmal, a Campanha da Fraternidade, que é um período de reflexão, diálogo, denúncia e de transformação.  Seu objetivo é despertar a solidariedade nas pessoas de boa vontade e da sociedade em geral, em relação a um problema concreto que envolve a realidade brasileira, buscando caminhos de solução, através de valores humanos, éticos e evangélicos. A cada ano é escolhido um tema específico que define a realidade concreta a ser transformada, e um lema que inspire e oriente a busca pela transformação. 


Para o ano de 2018, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil propôs como tema da Campanha da Fraternidade: “Fraternidade e superação da violência” e o lema “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). A Igreja quer trabalhar a violência, pois isso, devido ao seu alto grau de complexidade, este tema foi discutido, refletido e aprofundado em um seminário que aconteceu no dia 09 de dezembro de 2016, na sede da CNBB em Brasília.


A arte do cartaz da Campanha da Fraternidade como comunicação visual e simbólica retrata o tema de 2018, e apresenta um grupo de pessoas de diferentes idades e etnias de mãos dadas, representando a multiplicidade da sociedade brasileira. Segundo o secretário-executivo das Campanhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Luís Fernando da Silva, as pessoas que nele formam um círculo e unem as mãos, indicam que a superação da violência só será possível a partir da união de todos. “A violência atinge toda a sociedade brasileira em suas múltiplas esferas, o caminho para superar a violência é a fraternidade entre as pessoas que se unem para implementar a cultura da paz”, explica. 
Pode-se reconhecer e aplaudir todas as Campanhas da Fraternidade que a Igreja promoveu até hoje, principalmente essa que trabalhará esse tema urgente, mas, a partir da análise religiosa, cultural, social e política da arte do cartaz de 2018, constata-se que o mesmo como divulgação de uma proposta válida e urgente, não contempla o povo negro, justamente o que mais sofre violência na nossa sociedade.

Como falar de violência sem denunciar o extermínio da juventude negra nas periferias? Como falar de violência sem descrever a realidade da juventude encarcerada todos os dias no sistema penitenciário? Como falar de violência sem denunciar o feminicídio e o estupro cotidiano das nossas mulheres negras?


O Brasil é um país racista que define o espaço social do negro através da cor da pele, por isso que o mata, o prende e o violenta, por causa de uma visão preconcebida e estruturada culturalmente no imaginário coletivo da sociedade. Os cidadãos negros têm  um risco 23,5% maior de sofrer assassinato em relação a outros grupos populacionais. De cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras no Brasil. Mais de 60% dos presos no Brasil são negros. Além disso, houve também o crescimento do índice de homicídios de mulheres negras: 22% entre 2005 e 2015. 


O jeito de ser do brasileiro mostra que, culturalmente, os negros são considerados inferiores aos brancos e com baixa potencialidade para contribuir com o desenvolvimento social, político, religioso e econômico do país. Nesse sentido comenta Hélio Santos:
“De todas as grandes questões nacionais, nenhuma outra é mais dissimulada. O negro não está ausente apenas dos meios de comunicação em geral, mas também não comparece como uma entidade importante da vida nacional. O mesmo acontece nas novelas, nos filmes e nos comerciais de TV onde a sua presença não se dá de forma qualificada e na dimensão correta. A invisibilidade da questão racial deve ser interpretada como um fato que não se nota, não se discute e nem se deseja notar ou discutir. É como se não existisse. A história narrada nas escolas é branca. A inteligência e a beleza mostradas pela mídia também o são. Assim, o que se mostra é que o lado bom da vida não é e nem deve ser negro”.


A Igreja como perita em humanidade e defensora dos direitos humanos não pode se omitir diante deste quadro brasileiro e não pode também perder a oportunidade para denunciar a violência contra os negros e as negras. Por isso é necessário cobrar da Igreja, em relação à Campanha da Fraternidade, reflexão mais profunda sobre o povo negro, comprometimento, intervenção social mais séria e radical na busca de uma sociedade justa que possa reconhecer e incluir os negros e negras de forma fraterna e igualitária, através de cada proposta eclesial e pastoral.

Somente existirá superação da violência no Brasil, se os negros forem incluídos na vida social, econômica, política, religiosa e institucional. 

Pe. José Cristiano Bento dos Santos 
Pastoral Afro da Arquidiocese de Londrina