Aos mestres, 15 de outubro é dia do professor ...

 Aldo  Educação  14/10/2017

Todo dia 15 de outubro comemora-se o dia do professor. Poucos sabem que a data coincide com o primeiro decreto imperial de 1827 em que foi instituída a educação pública para todos no Brasil do século XIX, embora mulheres, negros e índios estavam fora da cidadania, não faziam parte do todos da época. Sabe-se que pouco se caminhou nessa direção sobretudo naquele século, contudo, vale destacar a convergência das duas datas, elas expressam a relação existente entre o ato de ensinar e o direito de aprender.

Gusdorf, Freire, Freinet, Montessori, Dewey, Makarenko, Piaget, Malaguzzi, Arroyo e tantos outros intelectuais, apesar de suas diferenças no trato do que é educação e como pratica-la, todos a concebem como uma relação entre professor-aluno mediada pela transmissão de saberes e construção reflexiva que produz conhecimento. Freire em sua pedagogia da autonomia enfatiza que ensinar é uma atividade essencialmente humana, não há docência sem discência e ensinar não é transmitir conteúdos. Talvez diante de tantos casos de violência escolar, de enfraquecimento da autoridade docente, teremos de parafrasear nosso Patrono da Educação e dizer que não há discente sem docente.

Educador, Professor, Tutor, se não houver relação comunicativa entre emissor e receptor não há construção do conhecimento. Nesse sentido a difusão da ética que move a vida e da utopia na relação ensinante-aprendente em sala de aula produz conhecimento na medida em que este não será superficial e sim é capaz de se fixar na vida daquele que hoje traz em si as marcas da aprendizagem vivida.

Todo professor realiza um trabalho pedagógico, sempre lembrando que Pedagogia significa Ciência da Educação ou Prática Educativa, e quando é boa ela consegue ser ambas, isso devido à realização da práxis pedagógica que se faz na medida em que está  enraizada na sala de aula. Essa não é apenas  o lócus especializado de aprendizagem dialógica, como se vê nas aulas expositivas em que há comunicação entre emissor-transmissor- de uma ideia, um conteúdo, um tema e receptor aquele que apreende o conceito graças a sua contextualização. A sala de aula é também o encontro dos diversos brasis que há em nosso país, é o lugar da república, da coisa pública, da aprendizagem de como viver com o outro, o diverso, o diferente no mesmo espaço público. A sala de aula é lugar de socialização. Por isso todo professor reconhece publicamente os ideais da República de Platão e semeia em sua prática educativa os valores de beleza, bondade e justiça, alimento que fomenta a vida e melhora a convivência entre as gerações e intrageração.

O ofício docente não deve ter por imagem a docência doente. Apesar de tantos terem professado essa afirmativa, vemos que desde os lentes do século XIX até os professores do século XXI, ainda esperamos por melhores dias para a docência popular. Piso salarial, menos alunos por turmas, relação entre professor-aluno, autoridade docente, trabalho pedagógico feito para aprendizagem e não para o controle social, são tantos desejos e lutas que movem os corações daqueles que não desistiram de seu fazer no mundo, sua missão de ser educador, de difundir ideias, projetar o novo e edificar colunas estruturantes da cidadania tão ambicionada pelas lentes da civilidade. Talvez esses desejos comunguem mais com o ideário do professor lente do século XIX do que com o do educador do Século XXI tão massacrado pelos sistemas de ensino e batuta dos novos advogados que silenciam o direito de dialogar, mudar e mexer com as mentalidades no interior das salas de aula, chão da democracia e da coisa pública que ainda não encontrou morada em nossas terras periféricas de nosso Brasil de origem colonial.

Contudo, é dia do professor, é 15 de outubro. Hoje é dia que olhamos para o presente e apesar da lei de 190 anos passados, lamentamos a existência de tantos analfabetos, tantos que não se expressam e não se comunicam com a palavra; não enxergam nela a possibilidade de vivenciar a força da democracia por meio de ideias, valores, ética e da moral incorporados pelo exemplo vivenciado na cidadania em movimento tecida pedagogicamente na relação professor-aluno no cotidiano dos 200 dias letivos do ano escolar. No ato de educar todo professor reconhece publicamente o quanto esses valores são essenciais no fazer do bem comum e no conviver entre diferentes, mas que habitam o mesmo solo e compõe o mesmo povo, por meio da mesma sala de aula que ainda espera pelo reconhecimento de ser solo da cidadania de nossa sociedade civil. Desejo antigo e ainda tão atual. 

 

Cristiane Gandolfi, professora da UMESP curso de Pedagogia, membro da Diretoria do Sinpro ABC e militante do Partido Socialismo e Liberdade _PSOL.