Amigo é para sempre...

 Aldo  Cultura  29/12/2017

HISTÓRIA E MEMÓRIA

De vez em quando eu ligo para minha amiga Eunice dos Santos, Auxiliar de Enfermagem aposentada que por vários anos liderou a luta no Complexo Hospitalar do Mandaqui, como presidenta da Associação dos funcionários e mais recentemente, como membro do sindicato dos trabalhadores da saúde do Estado de São Paulo.

Por muitos anos militamos pelas mesmas causas , onde sempre conversamos e compartilhamos alegrias e tristezas de um inesquecível período de vida e militância política e sindical .

Além da Eunice, recordo–me de inúmeros companheiros,(Jurandir, Anacleto, Duarte, Enéias, Zenaide, Jacira, Rodolfo, Dr. Washington , Osvaldo Ocon, Dejair, João Alves,etc.etc.) que em plena ditadura militar organizamos a luta no hospital Complexo hospitalar do Mandaqui.

Desafiamos a hierarquia local e governamental, por ocasião da realização da primeira greve nesse hospital no final da década de 70 e como não podíamos nos sindicalizarmos, fundamos uma associação dos trabalhadores.

Além da Associação dos funcionários, organizamos a ASSES (Associação dos Servidores da Saúde do Estado de São Paulo), embrião e organização que levou posteriormente a abertura política a criação e estruturação do sindicalismo no estado.

Essa Associação teve papel relevante na luta contra a ditadura militar, por melhoria nas condições de vida e salário dos servidores e de denúncia das mazelas dos governos em relação às precárias condições de trabalho e dos usuários desse importante nosocômio.

Fomos censurados, impedidos de nos reunir dentro do hospital, perseguidos pela ditadura. Numa determinada tarde quando estávamos trabalhando ,estacionou uma Veraneio no interior do Hospital e imediatamente fomos notificados para comparecermos ao Deops para prestar depoimento, além de inúmeras punições pela nossa atuação na defesa dos direitos dos trabalhadores.

No final de 1984, me colocaram de férias e antes de regressar ao trabalho fui transferido compulsoriamente no inicio de 1985, para um pequeno centro de saúde na região do Heliópolis , na capital.

No inicio do presente ano, falei com o companheiro Jurandir Albuquerque que com pesar me informou que o velho companheiro Anacleto Vieira da Cruz havia falecido em 2009.

Comuniquei ao Jurandir sobre a minha intenção de recuperar a nossa luta de enfrentamento a ditadura militar, ao Malufismo e aos diretores reacionários do complexo hospitalar do Mandaqui do final da década de 70 e início da década de 80

No final de 1981, passamos a organizar e participar do PT na zona norte da capital, pois o PT era uma febre e com a nossa liderança no maior contingente de trabalhadores da zona norte(Hospital Mandaqui), nossa atuação foi significativamente importante.

Em 1982 fui candidato a Deputado estadual para ajudar construir o PT e obtivemos em torno de 13 mil votos.Tudo era fruto de apoio e ações coletivas do grupo do Mandaqui e de um pequeno grupo de jovens de são Bernardo do Campo e Diadema .Nessas lutas, destaco a participação efetiva do companheiro Anacleto Vieira da Cruz, que nos orientava sobre os rumos a seguir, sendo como um grande guarda chuva a abrigar um “bando” de lutadores sociais que sonhavam mudar o mundo .

Ao falar desse período da história, a figura , o empenho, o compromisso e a valentia ideológica do companheiro Anacleto Vieira da Cruz sempre foi marcante na vida sindical e política de uma geração de lutadores que ele soube cativar, animar e socializar suas experiências de histórico militante do movimento comunista brasileiro.

Eu tinha um plano de fazer um amplo trabalho de registro oral com o próprio Anacleto, porém, a morte sempre nos surpreende.

De qualquer forma, vou tentar relatar alguns momentos que vivemos e compartilhamos em busca de um mundo melhor.

Enfrentamos os carrascos da ditadura, enfrentamos o governo Maluf, Montoro e outros governos Estaduais ao longo da existência de nossa atuação Sindical e partidária.

Ao falar com a Companheira Cida, filha do Anacleto, ela fez o seguinte relato : “O meu pai faleceu no dia 13 de setembro de 2009, vítima de um acidente vascular cerebral no histórico hospital do Mandaqui, que lhe acolheu na doença, na saúde, no trabalho e na morte. Morreu aos 83 anos de idade, em pleno vigor intelectual, pois ainda estava estudando.Era formado em direito, biologia, administração hospitalar e por vários anos tentou ingressar na faculdade de medicina , porém não logrou êxito.

Ele era natural do estado do Ceará, migrou para São Paulo aos 17 anos. Era casado com Julieta Della Pachoa e desse relacionamento teve três filho:Aparecida Vieira da Cruz, Carlos Alberto e Irson Viera da Cruz. Foi candidato a deputado estadual e vereador pelo antigo MDB na década de 60.A estrutura ideológica foi influenciada pelo irmão Dionísio, que era militante do PC .Anos depois, Anacleto juntamente com os demais companheiros ingressa no PT no inicio da década de 80.”

Além do relato acima, outros dados da sua militância juntamente com o grupo do Mandaqui merece registro:fomos os pioneiros na organização do partido dos trabalhadores na zona norte da capital a partir de 1980.Recordo-me que sequer sabíamos como nos filiarmos a um partido político e naquela época, encaminhamos um abaixo assinado ao sindicato dos metalúrgicos do ABC solicitando nossa filiação ao combativo PT que representava importante norte na luta sindical e partidária.

Para realizarmos a primeira greve no Mandaqui,fomos até a associação dos servidores publico estadual, para nos informarmos de como deveríamos proceder a partir do momento em que decretássemos a nossa greve. Tudo foi um grande aprendizado, uma grande escola, um grande momento político que contribuiu para sepultar definitivamente a famigerada ditadura militar que imperava em nosso país.

Ao fundarmos a nossa Associação, fui o primeiro presidente e o companheiro Anacleto o vice-presidente, conforme documentos que ainda tenho guardado,(feito em mimeografo a álcool), onde relata: “por querer saber a verdade e contribuir com o bem público, os companheiros Aldo e Anacleto (presidente e vice- presidente da afuphom), foram punidos com 15 dias de suspensão e ao final do boletim convida os trabalhadores para protestarem na assembléia legislativa de SP, dia 24/06/1981”.(sara-cura)

Em 1982 para construir a luta na capital e o próprio partido dos trabalhadores, fui indicado como candidato a deputado estadual , sem a menor experiência eleitoral. Num dado dia, na reunião da entidade, o Anacleto, me chamou para irmos a rua e disse:”olhe para essa rua até aonde suas vistas alcança e perguntou: quantos votos existem? fique em dúvida e disse: deve ter uns 500 votos. Ele disse: tem a quantidade de voto que você quiser. Baste ter coragem, método e capacidade de convencimento das pessoas sobre suas idéias e propostas. O povo convencido de uma idéia, reproduz infindavelmente o que se acredita; finalizou”.

Outro momento importante da união e organização da nossa entidade foi no governo Montoro, com sua psuda-democracia.

Ele pediu para que os hospitais indicassem uma lista tripla para que ele escolhesse o diretor e o administrador das repartições públicas.

A associação organizou uma eleição livre e direta e apoiaram os candidatos Dr.Washington Miranda de Carvalho para diretor do hospital e para administrador hospitalar, apoiamos o companheiro Anacleto Vieira da Cruz. Os dois foram os mais votados pelos médicos, enfermeiros, funcionários, porém o governo escolheu outros para os respectivos postos. Desmascaramos a falsa democracia participativa do governo estadual e mais uma vez os funcionários tiveram que se submeterem a diretores fantoches e sem respaldo popular.

São muitas as histórias que vivenciamos.

Outro fato que me chamou atenção e me encheu de orgulho foi em 1989, no dia 1º de janeiro, daquele ano, eu tomava posse como vereador eleito em bcampo. Na cerimônia, ninguém ousava quebrar o protocolo. Na hora do juramento, o dois, Anacleto e Dr. Washington das galerias na hora que leram o meu nome eles gritaram “viva a revolução da classe trabalhadora”. O cerimonial pediu silencio e ordem nas galerias , enquanto todos tentaram em vão localizá-los.

Eu estava radiante, pois, mais uma vez a rebeldia do Mandaqui se fazia presente.

Finalmente, a efetiva participação de Anacleto Vieira da Cruz foi determinante na união e organização da luta na Zona Norte da Capital, bem como em dezenas de encontros que nos reunimos “clandestinamente.”

Sua memória de honestidade, luta e compromisso com os excluídos da sociedade capitalista deve ser preservado por todos que com ele viveu e partilhou alegrias , tristeza , e o sonho de uma sociedade justa e fraterna.

Companheiro Anacleto, sua luta, sua história e seu exemplo estão presentes nas gerações libertarias de ontem, hoje e sempre.

Registrar a história da classe trabalhadora pelos próprios trabalhadores é preciso.!!!

Aldo Santos : sindicalista, ex-vereador sbc, Presidente da Associação dos professores de filosofia e filósofos do Estado de São Paulo, coordenador da TLS, Membro do Diretório Nacional e da Executiva do Psol-SP.(13/02/2010)